A história da linguagem humana é a história do cérebro humano e suas habilidades cognitivas. A linguagem e a sociedade estão ligadas, a relação entre ela é o marco da constituição do ser humano atual.
Há cerca de 7 e 5 milões de anos, os hominídeos se separaram das outras espécies de primatas. O gênero Australopithecus e o gênero Homo foram os quais obtiveram maior distinção.
Devido as mudanças do clima na Terra, o hominídeo Australopitecino obrigou-se a comer mais carne, adotar uma postura ereta e desenvolver o bipedalismo, o que possibilitou maior habilidade para coletar comida e para caçar. Os Australopitecinos se ajustaram mentalmente e fisicamente, permitindo a cooperação entre os bandos e caça por longos períodos e maiores distâncias. Fósseis mostram que o Australopithecus africanus tinha a capacidade linguística de um gorila, desse modo, ao dominar o bipedalismo, tornaram-se primatas andantes, mas não primatas falantes.
A linguagem vocal só surgiu no gênero Homo.
O habilis surgiu quando o clima da África mudou, tornando-se seco e frio. Os Australopithecus eram inaptos a mudanças ambientais, enquanto o Homo habilis possuía atributos melhorados, como membros mais longos e modernos. Não fabricava armas, mas construiu ferramentas de pedras simples e foi o primeiro a controlar o fogo. O habilis possuía caminhos neurais para uma linguagem rudimentar. Eram anatomicamente incapazes de articular sons humanos, sua laringe ainda não havia evoluído. Mesmo que os caminhos neurais estivessem presentes, os órgãos físicos não estavam.
A ciência moderna reconhece três espécies do gênero Homo: os habilis, os erectus e os sapiens, nessa ordem de evolução. Apenas duas dessas espécies sobreviveram além da África, os erectus e os sapiens, elaborando uma fala rudimentar e uma organização social que permitiu migrarem em pequenos grupos. O Homo erectus foi o primeiro hominídeo a deixar a África, seguindo animais selvagens.
Quase totalmente carnívoro, o erectus era magro, alto, rápido e mais esperto que os outros hominídeos anteriores a ele. Do pescoço para baixo até lembrava os humanos modernos. Foi o primeiro hominídeo globalmente adaptado. Confeccionou diversos objetos de uso manual, principalmente machados de pedra, osso e madeira. Eram inteligentes e organizados o suficiente para construir balsas de bambu.
Os planejamentos complexos exigiram processos mentais complexos. A prática social implementou uma cooperação social maior. Isso implicou o uso de uma linguagem que permitiu uma sintaxe condicional, frases significativas e sentenças sequenciais. O Homo erectus tornou-se capaz de se expressar e esse foi o primeiro passo da humanidade para um pensamento simbólico.
O erectus poderia ter sido capaz de usar uma linguagem vocal. Expressões curtas e significativas eram possíveis, talvez uma sintaxe condicional estivesse em desenvolvimento, mas expressões vocais longas e complexas ainda eram impossíveis anatomicamente.
Todo o Velho Mundo foi povoado pelo Homo erectus. As migrações sucessivas da espécie, criaram uma diversidade racial e uma liberdade genética. A Europa deve ter sido invadida em diversos pontos por espécies diferente de hominídeos. As sociedades de hominídeos primitivos europeus indicam o aparecimento de grupos de caça que se separavam do grupo principal por longos períodos. Porém, para sobreviver na Europa durante eras glaciais, tiveram que desenvolver redes sociais mais complexas, possibilitando assim, o princípio de uma fala articulada.
A fala articulada permitiu que os erectus facilitassem seus planejamentos e organizações. É possível que tenham começado a nomear os membros de um grupo também.
A linguagem vocal humana evoluiu com função distinta e autônoma dos órgãos da fala e do cérebro humano. O uso humano da linguagem vocal é um processo dinâmico simbólico, antropocêntrico e não associativo.
Mudanças expressivas nas vocalizações dos hominídeos foram ocorrendo. Talvez consequência da dieta, das migrações, das mudanças climáticas e da evolução da capacidade cerebral. A gramática foi surgindo a partir de sons indistinguíveis. A fonologia se tornou mais sofisticada, resultante de um controle verbal melhorado. As distinções fonéticas tornaram-se distinções fonêmicas.
O Homo erectus preparava um modo de processamento da linguagem, contudo, sem conter os essenciais linguísticos humanos. Todos os seres humanos precisam abrir a boca para falar, todas as línguas possuem verbos e complementos, possuem imperativo, afirmativo, negativo e interrogativo. Esse é um modelo linguístico autônomo herdado pela nossa espécie.
A função comunicativa da linguagem influencia na forma da linguagem. Os gestos estão, de modo integral, ligados a fala humana. Para permitir que o falante pense, a linguagem dos gestos contribuiu para o desenvolvimento da linguagem vocal humana.
Quando o gelo se concentrou mais ao norte da Europa, um grupo de hominídeos atarracados, troncudos, de membros curtos e fortes surgiu: os Neandertais.
O cérebro do Homo Neanderthalensis era maior do que o dos humanos modernos, porém, sempre preferiram os músculos ao cérebro. Usavam uma linguagem rudimentar, fabricavam ferramentas complexas e organizavam suas sociedades com elevado valor.
A língua dos Neandertais indicava uma fala fluente e frequente, dentro dos limites de variação da espécie. Com um pensamento produtivo, o cérebro exigiu palavras referenciais, os sons relacionados a objetos. Palavras que apontavam para outras palavras. O pensamento e o sistema linguístico se tornaram autorreferenciais. As palavras e os elementos das frases e sentenças foram conectados de maneira que produzissem sentido.
Quando o gelo invadiu a Europa novamente, os Neandertais possivelmente migraram para onde hoje é o Oriente Médio. Nesse período já praticavam atividades sociais, como enterros, práticas de caça e lutas.
Existe a possibilidade de neanderthalensis e sapiens terem interagido. Isso resultaria em uma contaminação fonológica, produto da influencia das respectivas linguagens. Havia também, uma falta de distinção entre as culturas neanderthalensis e dos sapiens, até que um “salto” evolucionário permitiu o surgimento de novas tecnologias. Assim, os sapiens, através de competições e invasões, extinguiram e substituíram os neandertais na Europa e Oriente Médio e os erectus, no Extremo Oriente.
Os Homo sapiens primitivo praticavam arte, música e enterravam seus mortos com presentes. Elaboravam pequenas sociedades, vivendo num assentamento definitivo. Tinham grande conhecimento da natureza e da caça. E teriam usado a linguagem tanto quanto a usamos hoje.
A fala articulada, assim como o raciocínio simbólico, estavam sendo usados de todos os modos que conhecemos, e os hominídeos se tornaram além de “primatas falantes”, também “primatas simbólicos”. A função dos músculos foi substituída pela funcionalidade do cérebro.
A linguagem vocal humana evoluir junto com a mente humana e o desenvolvimento dos órgãos da fala. Enquanto o cérebro aumentava, a fala se tornava mais articulada. Funções como a de gesticular, assumiram tarefa na fala. Cada função alimentava outra. O pensamento primitivo e as vocalizações evoluíram para o pensamento sofisticado e a fala articulada.
No processo de evolução da fala, populações humanas vítimas ou beneficiários de clima, acidentes geológicos, guerras e doenças. Milhares de línguas surgiram e desapareceram.
A fala articulada foi completamente conquistada, os grupos de sapiens governavam territórios independentes, com suas próprias leis. O Homo sapiens foi a única espécie que sobreviveu à evolução, com milhares de línguas distintas e centenas de famílias linguísticas.
Quando o clima esquentou novamente, aumentou as chuvas e os oceanos do planeta subiram, separando povos antigos. Esse clima quente produziu um grão mutante: o trigo de pão. Com isso, houve uma revolução biológica. Os humanos estabeleceram grupos rurais permanentes, o cultivo evoluiu de horticultura para agricultura e se tornou o principal meio de subsistência, aumentando assim a comunicação verbal.
Os humanos permaneciam em um determinado local durante gerações. Apareceram as primeiras cidades, as línguas regionais tornaram-se influentes e eram reconhecidas em terras estrangeiras como “língua de tal lugar”. Desse modo a linguagem humana se ligou à terra.
Os usos da linguagem na sociedade, portanto, demarcou um lugar na sociedade. As questões sociais passaram a ser refletidas no uso linguístico, e assim, o reconhecimento de que a linguagem é a ferramenta fundadora e o resultado da construção da vida social.
Referências:
FISCHER, Steven Roger. Uma breve história da linguagem. Tradução Flávia Coimbra. Osasco/SP: Novo Século Editora, 2009.
ROSSEAU, Jean-Jacques. Ensaio sobre a origem das línguas. Campinas/SP: Unicamp Editora, 1999.
